quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A transitoriedade da vida.

Por Regina de Faria

         A cada novo impacto decorrente da notícia da morte de alguém confirma a certeza de que nossa vida se resume em dois momentos marcantes: a primeira inspiração e a última expiração. No intervalo exercitamos nosso livre arbítrio consciente do fato de que nenhum de nós sairá vivo desta experiência. Para a grande maioria dos mortais e, apesar desta certeza nos rondar nos momentos de dor, com raríssimas exceções, ninguém está totalmente preparado para este momento.
        Cada inspiração tem o poder de fazer o presente se transformar rapidamente em passado e de acordo com muitas tradições espirituais, só conseguiremos viver em plenitude se construirmos o aqui e agora de uma maneira consciente e transcendente celebrando o ritual de morte e renascimento que acontece naturalmente neste processo dinâmico de inspiração e expiração.
       Tudo isto é fantástico em teoria até vivenciarmos a morte de pessoas próximas e queridas e de uma maneira mais dramática quando estão na flor da idade. A morte nestas circunstâncias seja de familiares ou mesmo ídolos que se transformaram em modelos de excelência em nossas vidas têm o poder de refrear a correria de nosso dia-a-dia e deveriam marcar momentos ricos de introspecção e reflexão.
      A partir de dados apresentados pela Confederação Nacional de Municípios – CNM sabe-se que ao contrário dos países desenvolvidos, no Brasil, a quantidade de fatalidades em acidentes tem crescido muito e por diversos fatores que não serão aqui analisados. As estatísticas colocam o Brasil entre os países com mais mortes no trânsito no mundo. Só em 2007 a média foi de 183 mortes por dia no trânsito brasileiro (7,6 por hora).
       O mapa da violência no Brasil divulgado no mês de fevereiro deste ano pelo Ministério da Justiça mostrou que houve um aumento de 32,4% nas mortes de jovens em decorrência de acidentes de transporte no período de 1998 a 2008. Na última década, o número de mortos no trânsito subiu quase 24% enquanto a quantidade de acidentes com motos cresceu 750%. Os acidentes causam mais vítimas fatais que a malária e a Aids juntas, pois mais de 35 mil pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito no Brasil. Infelizmente estes dados estatísticos não conseguem alterar a dor latente do centro de nosso peito pela ausência de nosso convívio de uma pessoa querida.
       Impressiona o número de desastres recentes e simultâneos decorrentes de catástrofes do trânsito que tem ceifado drasticamente vidas em plena juventude. Imprudência, destino ou fatalidade, seja o nome que se dê, não cabe a nós compreender as razões insondáveis de fatos tão dramáticos. Certo é que o trânsito tem sido uma arma fatal que tem retirado abruptamente de nossa convivência pessoas com todo potencial de vida e realização. Às vezes, me pergunto se o automóvel, símbolo da “era da máquina” não se transformou no ícone de uma sociedade falida que geme por transformação imediata em seus valores.
       Pela lógica os filhos devem enterrar seus pais, experiência por si só muito dolorosa, mas vivenciar a inversão desta ordem cronológica nos remete ao sofrimento de Maria Santíssima ao abraçar aos pés da cruz o corpo inerte de seu Amado Filho. Compartilhar a dor de uma mãe, um pai, um amigo confidente aos pés do caixão nestas circunstâncias nos faz humildes e pequenos frente a tanta dor e me remete a um conselho de Chico Xavier:

“Viver é sempre dizer aos outros o quanto eles são importantes. Por que um dia eles se vão e ficamos com a nítida impressão que não amamos o suficiente.”



 
Regina de Faria Brito
   Presidente SINDIANÁPOLIS 
 www.sindianapolis.org

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A CIDADE DE ANA.

Por Regina de Faria

              No dia 31 de Julho comemora-se os  104 anos de Anápolis e sua história coincide, em meados do século XIX, com as primeiras penetrações no território onde se localiza a cidade, por habitantes do Norte do País, que, dirigindo-se às Províncias do Sul, percorriam a extensa faixa de terras entre Jaraguá e Silvânia. A Província de Goiás era um imenso sertão pouco povoado. A população era eminentemente rural, sendo as cidades pouco habitadas e distantes umas das outras. As estradas eram precárias e as mercadorias eram transportadas no lombo de mulas levando, às vezes, meses para chegar a seu destino. Quando Gomes de Souza Ramos chegou ao local com o objetivo de construir a capela de Santana, alguns viajantes já haviam fixado residência pelo interior, principalmente nas cabeceiras do riacho das Antas. Contudo, somente em 10 de março de 1892 foi instalado o município e em 31 de julho de 1907 foi elevado à categoria de cidade, com o nome de Anápolis, a cidade de Ana.
               Inicialmente seu crescimento urbano se adequou à topografia e a cidade cresceu espontaneamente entre os fundos de vale em torno da capela de Santana. Contudo, sob os aspectos de sua evolução urbana, pode-se afirmar que seu crescimento acelerado tem sido marcado pela aprovação excessiva de loteamentos sem a intervenção planejadora do poder público. Esta prática determinou o estabelecimento de problemas urbanos agravados ao longo do tempo, como a ausência de infra-estrutura, serviços e equipamentos urbanos, dispersão urbana, expansão sobre áreas de preservação ambiental, segregação sócio-espacial, dentre outros fatores. Hoje, mais do que antes é nítido o espraiamento da ocupação e esta dispersão tem acompanhado a evolução urbana do município, em virtude, principalmente da pressão do capital imobiliário para a ampliação da área de expansão urbana.
             Apesar dos diversos Planos Diretores urbanos aprovados no município (1968, 1985, 1992 e 2006) apontarem sempre como objetivo principal a contenção da expansão urbana, a ação governamental, com raras exceções nas diversas gestões municipais, foi contrária a esta política, contribuindo com a formação e valorização dos vazios urbanos e da decorrente dispersão urbana, causadora dos altos custos de urbanização. Pode-se afirmar que, em Anápolis não houve uma falta de políticas públicas, principalmente em relação à aprovação sistemática de Leis para a ampliação do perímetro urbano, mas estas ações fizeram parte de um modelo de gestão que privilegiou os interesses dos agentes privados ligados, principalmente ao capital imobiliário.
             Os frágeis mecanismos de controle entre as relações público-privadas em todo o país têm conduzido à política estatal a ser presa fácil da corrupção desmascarando a relação incestuosa entre o público e o privado e jogando luz sobre as trevas que encobrem o submundo que tem sido o financiamento de campanhas políticas. O caixa dois, já comprovado publicamente, mas ainda sem punição, passa a ser um negócio de mão dupla que interessa tanto aos próprios políticos, que se beneficiam do dinheiro durante as eleições, quanto aos investidores, que são favorecidos quando o ex-candidato ocupa algum mandato. Com certeza, as “doações” aguardam a “recompensa” futura do investimento de campanha acobertado por uma prática obscura e obscena adornada por um marketing político sofisticado. Se não bastasse incluí-se a estas doações, a prática de licitações arranjadas e obras superfaturadas, que acabam sendo reinvestidas nas campanhas eleitorais transformando a figura do “doador”, prevista na legislação eleitoral, em investidor que, como tal, buscará seu lucro.
               O encarecimento das campanhas políticas, exigindo mais e mais recursos a cada dia, tornou menos transparente as relações entre a iniciativa privada e o poder público, alimentando esta prática degradante. A política abandona a essência de seu conceito de dar o sentido da ação, pois desagregada do valor ético perde a razão de sua existência.
              Comemora-se o aniversário de Ana com muitos avanços na esfera administrativa e com a retomada de investimentos públicos, mas torna-se imprescindível avaliar e refletir sobre as consequências nefastas sedimentadas na estrutura urbana do município causados pela distorção da prática política vigente em todo o país.




Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS
www.sindianapolis.org

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O CASAMENTO DO CÉU COM A TERRA.

Por Regina de Faria

          No último dia 3 de Junho Anápolis foi presenteada com a visita ilustre do escritor, professor universitário e expoente da Teologia da Libertação no Brasil, Leonardo Boff. Ele foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos e é respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e as questões ambientais. Sua reflexão teológica abrange os campos da Ética, Ecologia e da Espiritualidade trabalhando, também no campo do ecumenismo.
         Aos 73 anos de idade ele coleciona uma produção literária composta de mais de 60 livros construindo uma história de abrangência internacional. Sua vinda à Anápolis inseriu-se nas comemorações da semana do meio ambiente de 2011 coordenada pela Prefeitura Municipal. Quem teve o privilégio de compartilhar algumas horas com tão notável presença vivenciou a emoção amplificada pela apresentação de um vídeo com os pontos principais da Carta da Terra. Este documento foi aprovado em Paris no ano de 2000 com a participação efetiva de 46 países. Leonardo Boff foi o representante do Brasil no processo de mais de dois anos de elaboração deste documento estruturado em quatro principios: (1) respeitar e cuidar da comunidade de vida; (2) integridade ecológica; (3) justiça social e econômica; (4) democracia, não-violência e paz.
         Leonardo Boff afirma que esta carta nasceu como resposta às ameaças que pesam sobre o planeta e como uma forma de se pensar articuladamente os muitos problemas ecológico-sociais, tendo como referência central a Terra ou “Gaia”. Para ele a categoria sustentabilidade deve ser o fundamento do novo paradigma civilizatório que procura harmonizar os seres humanos com o desenvolvimento sustentável da Terra. Embora este termo tenha surgido oficialmente em 1979 na Assembléia das Nações Unidas o conceito possui uma pré-história de quase três séculos, pois já em 1713 foi utilizado para designar a percepção da escassez provocada pelo desflorestamento decorrente do processo de industrialização. Em 1987, após quase mil dias de reuniões de especialistas convocados pela ONU foi publicado o documento Nosso Futuro Comum onde se encontra a clássica definição: "sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades".
          O desenvolvimento econômico tem sido a mola propulsora da sociedade capitalista e, portanto a produção e o consumo estão diretamente vinculados às questões relativas à sustentabilidade. Se no decorrer da evolução de nossa história a prática política houvesse seguido os princípios de busca do bem comum, com certeza os caminhos trilhados pelo Ocidente estariam mais próximos dos fundamentos da Carta da Terra. Infelizmente, o percurso escolhido foi o da mercantilizarão de todas as coisas e o submetimento da política e da ética à economia. A crise ecológica atual deriva desta escolha que, sendo mantida, poderá ameaçar o futuro da vida no planeta.
         Ainda há tempo para revisões e buscas de alternativas paradigmáticas. Para tanto necessário se faz repensar nossas escolhas criando uma estratégia que substitua a manutenção da política econômica dominante por um novo modo de viver, fruto de um cuidado para com toda a forma de vida no planeta.
         Apesar dos dados apocalípticos apresentados pelo ilustre palestrante os presenteados naquele evento saborearam o sonho e a possibilidade de ver a humanidade como parte de um vasto universo em evolução.   A semente foi lançada em nosso solo em busca do casamento do céu com a terra, visto como o encontro do mundo material com o espiritual e alimentado pelo desejo coletivo de podermos colher frutos de fraternidade e de cuidado para com todas as formas de vida.



Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS -
www.sindianapolis.org

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A ciência da paz.

Por Regina de Faria

          Temos consciência de que o homem contemporâneo convive diariamente com situações estressantes um dos resultados de uma sociedade pautada na competitividade e consumismo exacerbados. O stress considerado uma doença a partir da década dos anos 90 é proveniente de uma vida agitada e corrida cheia de afazeres e preocupações e atinge as pessoas independente de sua classe social, faixa etária, cor ou religião.
        Em cada esquina que atravessamos já existe uma ciência do conflito e da guerra instalada, por isto passou a ser essencial a renovação de nossas reservas de paciência interior. A condição de saúde em plenitude neste novo milênio exige sabedoria, considerada o instrumento fundamental para a tão necessária ciência da paz. Precisamos inverter este círculo vicioso da violência no círculo virtuoso da serenidade e da ternura. Mas essa tarefa não é tão simples, pois este conhecimento ainda não habita o currículo de nossas escolas. É necessário aprender com a vida. Cada dia nos traz uma lição e com certeza, as pedras de tropeço podem se transformar na motivação para a busca de paz interior.
        Pierre Weil (1924-2008), doutor em Psicologia pela Universidade de Paris, após uma crise existencial seguida de um câncer dedica-se de corpo e alma à pesquisa e ao estabelecimento de uma cultura para a paz. A UNIPAZ foi criada em 1987 e ele passa a ser o seu presidente. Em 1989 Pierre Weil elabora uma teoria sobre a gênese da destruição da vida sobre o Planeta e sobre os princípios e abordagens que possibilitam um novo método de Educação para a paz. Ele segue em sua abordagem as recomendações do preâmbulo da UNESCO (organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e cultura) que afirma: “As guerras nascem no espírito dos homens, e é nele, primeiramente, que devem ser erguidos os baluartes da paz.”.
         Esta nova concepção se apóia na trilogia integrativa de três aspectos da Paz, a saber:
        1- A Paz consigo próprio, denominada Ecologia e Consciência individuais e atua nos planos do corpo, das emoções e do espírito;
       2- A Paz com os outros, denominada de Ecologia e Consciência Sociais e atua nos planos da economia, da sociedade, da política e da cultura;
        3- A Paz com a natureza, denominada de Ecologia e Consciência do Universo e atua nos planos da matéria, da vida e da informação.
        Este novo modelo de educação foi desenvolvido em diversas modalidades e workshops que estão sendo desenvolvidos em todo o mundo com o apoio da UNESCO e parte do pressuposto de que a violência pode ser banida imediatamente de todos os níveis da vida, mas é necessário que os homens escolham com audácia, imaginação e determinação o caminho da paz. Porque ele não é o único. Existe também a trilha sombria que conduz à desordem e à guerra e que tem o poder de nos indignar comprometendo também nossa paz interior.
         Diversas e diferentes tradições espirituais apresentam caminhos para a busca da paz interior. Para os cristãos a verdadeira paz é apresentada pela fé e pela graça de aceitar Jesus como o dom de Deus e a garantia de perfeição e segurança do homem. Através da simbologia da cruz, tudo aquilo de que o homem tem necessidade, tanto no plano horizontal, visto como suas necessidades materiais, quanto no plano vertical pela necessária evolução espiritual, Jesus responde em suas célebres autoapresentações: “Eu sou – o pão, a paz, o pastor, a porta (de acesso ao Pai), a ressurreição e a vida, o caminho, a verdade e a vida.” Viver em comunhão com Deus significa ser feliz. O amor é a experiência central do cristianismo. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo e com certeza a natureza já estava subtendida neste mandamento.
         Jesus Cristo diz a todos os que crêem nEle: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração" (Jo 14.27b).




Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS

segunda-feira, 9 de maio de 2011


TRANS FORMAR-SE
APESAR DO TRÂNSITO

Por Regina de Faria

          O século XXI tem sido considerado o da globalização da economia aliada à velocidade de informação. Já o século XX foi caracterizado pelo crescimento das cidades atingindo níveis de urbanização na casa dos 85%. Desta forma, um dos grandes desafios que as cidades encontram, é como conciliar os atributos da vida urbana, tais como veículos, pessoas e lixo, tendo em vista a preservação de um meio ambiente “saudável” (se é que se considera isto possível).
          Na maioria das cidades brasileiras de médio e grande porte está praticamente inviável transitar pelas ruas, principalmente em horários de pico. O serviço de transporte coletivo precário e o crédito facilitado resultam na aquisição fácil de veículos que sobrecarregam as ruas com excessiva utilização de meios de locomoção individuais. A relação “espaço-tempo” tão importante nas relações urbanas está caminhando cada dia mais na contramão. A ausência de políticas públicas, tais como plano diretor de transporte e circulação nos municípios, que poderiam atenuar os conflitos de mobilidade urbana vem agravar ainda mais o quadro negro do trânsito nas cidades.
          Por ser um tema que nos aflige cotidianamente sugiro que na próxima vez que você se encontrar no trânsito faça uma experiência de “plena atenção” observando como as pessoas se comportam. Alguns motoristas estarão calmamente falando ao celular, transformando seus veículos em escritório pessoal, ao mesmo tempo em que dirige desconsiderando as normas de trânsito. Outros excessivamente ansiosos vão extravasar sua irritação no volante ou na buzina. Alguns pertencentes a categoria dos que são melhores do que os demais mortais vão burlar as lei em vigor para tirar vantagens.(Ahhh como estes conseguem nos tirar do sério...). Já uma minoria vai conseguir controlar seu estado de stress e buscar nos arquivos mentais técnicas de autocontrole e com esforço sobrenatural vão conseguir dirigir com tranquilidade.
          Entrevistas realizadas para sustentar a tese de mestrado da psicóloga Gislene Maia de Macedo da Universidade de São Paulo demonstram que nove em cada dez pessoas ficam tremendamente irritadas ao serem cortadas por “apressadinhos” de plantão. Três em cada dez assumem exceder os limites de velocidade estipulados sendo responsáveis pela maioria dos acidentes e quatro em cada dez reconhecem reagir com hostilidade com gestos, gritos e com certeza a mão na buzina.
         Pesquisadores também concluíram que a agressividade ao volante está associada ao temperamento dos motoristas. Acredito que é no trânsito que nosso lado sombra aparece e aí pouquíssimas pessoas conseguirão manter-se imune a reações irracionais. Psicoterapeutas afirmam que, "Situações que impedem ou dificultam a mobilidade são as maiores causadoras de estresse, o que acaba gerando um comportamento agressivo”. Este estado de stress, por sua vez, revela uma teia de contradições dos motoristas, que demonstram não ter consciência das situações de risco em que acabam se envolvendo.
          O "pecado" no trânsito (violações à lei ou comportamentos agressivos) que são mais admitidos é a impaciência com o motorista “da melhor idade” ou aqueles mais lentos utilizando a faixa da esquerda o que leva os stressadinhos à ultrapassagem pelo lado direito.
         De qualquer forma vale a dica para os que concordam com o filósofo Sócrates especificamente na inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir sua filosofia: “Conhece-te a ti mesmo.” É este ato de conhecimento, capaz de promover nossa autotranscendência, pois apenas através desta atitude podemos modificar nossa relação para conosco mesmo, para com os outros e para com o mundo.
         Com certeza as situações de trânsito revelam muito mais de nós mesmos do que poderíamos em sã consciência imaginar.

Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS
www.sindianapolis.org

sexta-feira, 8 de abril de 2011

BONS TEMPOS.

Por Regina de Faria

         Eu sou arquiteta urbanista de formação. Anapolina da “gema”. Servidora pública por vocação. Cresci em um meio político, pois nos idos da década de 60 meu pai foi vereador em minha cidade natal, Anápolis-GO. Meu tio Anapolino Silvério de Faria apesar de médico de profissão, ao retornar à casa do Pai em 2008, deixou saudades não apenas a seus familiares, mas a muitos eleitores do município por representar um espécime em extinção: o político íntegro. Em sua extensa e bem sucedida vida pública colecionou honrarias de valor inestimável. Dentre diversos e bem sucedidos vôos na carreira política, foi prefeito de Anápolis por dois mandatos, 1983 a 1985 enquanto o último dos prefeitos nomeados do município e de 1989 a 1992 como prefeito eleito. Não por acaso traz em seu nome a designação de sua maior missão, a devoção de seu trabalho em prol de sua cidade natal.
        Eu tive o privilégio de conviver intimamente com ele, pois no início da década de 60 minha família mudou-se do ultimo andar do Hotel Itamaraty para uma residência construída, na então última rua do traçado urbano da cidade. Ocupávamos a casa do meio situada entre a casa do “tio Nem” mais acima e a do “tio Anapolino” mais abaixo. Ainda titubeante nos meus primeiros passos tive a oportunidade de crescer na convivência muito próxima destas famílias. Em um cenário “rural” as brincadeiras aconteciam entre as grandes mangueiras, fixos, lagartixas e outros bichos localizados nos extensos quintais que se permeavam devido à ausência dos limites dos muros.
        Neste ir e vir frenético esta convivência me propiciou o contato com ilustres personagens da vida política nacional, amigos íntimos de meu tio, tais como Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves e Oscar Niemeyer dentre outros. Estas experiências alimentaram meu imaginário infantil e ao mesmo tempo delineava meus caminhos pessoais, cumprindo, também uma missão importante em minha educação cidadã.
        O tempo passou rapidamente e por obra do destino em meados da década de 80 estávamos lado a lado na Prefeitura de Anápolis. Neste local preciso, meu tio obteve seu sucesso maior, pois indubitavelmente tem sido citado por “gregos e troianos” como exemplo do ente político que utiliza o poder a ele conferido com sabedoria visando o pleno desenvolvimento do patrimônio que pertence a toda coletividade. Com este sentimento latente em todas suas ações, sabia com clareza que deveria valorizar os servidores, seus companheiros, que concretizariam as políticas públicas por ele definidas sempre em conjunto com sua equipe técnica. Desta forma, como participante desta equipe o ouvi repetir inúmeras vezes que ele era médico e por isto precisava de outros especialistas auxiliando suas decisões. Os servidores públicos municipais eram considerados por ele parceiros na construção de uma sociedade mais justa e por isto fazia questão de valorizá-los materialmente e emocionalmente.
        O slogan por ele escolhido para caracterizar sua passagem como Prefeito Municipal - “Anápolis eu te amo,” sintetizava todo o sentimento que norteava suas decisões: O amor incondicional a este solo de cerrado. Sua firmeza no agir e a coerência aos seus princípios morais justificam o adjetivo dado pelo seu amigo e jornalista Manoel Vanderic em suas memórias, caracterizando-o como “um cidadão singular.”
        Tenho convicção que estas experiências já definiam o que viria a ser minha missão enquanto profissional: transitei da área da arquitetura e urbanismo para a esfera sindical. Estou no Sindianápolis – Sindicato dos Funcionários e Servidores Públicos  Municipais  de Anápolis desde 2003 e assumi a presidência a partir de 2007. Graças a Deus estou sobrevivendo, apesar das perseguições e humilhações de toda espécie, em uma ceara cheia de espinhos e bichos selvagens de todas as espécies. Tenho colecionado avanços expressivos para os servidores, mas tenho que confessar que, infelizmente, as vitórias acabam sendo ofuscadas pela difícil tarefa de transitar no meio político em um momento em que a corrupção, a impunidade e a hipocrisia são valores inerentes à atividade política. Já se foi o tempo em que um homem não precisava de documentos ou registros em cartório, pois sua honra andava lado a lado com sua palavra.
Bons tempos aqueles...

Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS
www.sindianapolis.org

sexta-feira, 1 de abril de 2011

AS DORES DA TERRA

Por Regina de Faria


        Já se tornou recorrente o bombardeio de notícias catastróficas oriundas de todos os “cantos” do planeta e de diferentes níveis: terremotos, inundações, tsunamis, desastres envolvendo usinas nucleares, dentre tantos outros. Nestes momentos podemos sentir a alma do planeta gemer e este lamento ecoa em cada um de nós através da compaixão por tantos que perdem tudo e vêem familiares, amigos e vizinhos perderem até mesmo a própria vida. Hoje o planeta se transformou em uma grande aldeia global e compartilhamos o sofrimento daqueles, que embora distantes fisicamente, fazem parte da mesma família.
        A partir de meados da década de 1990 a maioria da humanidade passou a viver nas cidades atingindo marcas dos níveis de urbanização na casa dos 85%. O mundo hoje é um grande espaço urbano e as conseqüências da exploração irracional dos recursos naturais já se faz presente através de grandes catástrofes. Há muito que a causa ambiental passou a ser uma estratégia de sobrevivência da vida em nosso planeta e comungo com aqueles que acreditam que ainda temos tempo para reverter as conseqüências do modelo de desenvolvimento irracional e predatório.
        Conforme Roberto Crema (1989), psicoterapeuta e reitor da Universidade Holística Internacional, “para qualquer pessoa dotada de um mínimo de arte de ver o óbvio é tão fácil quanto atordoante constatar que vivemos uma crise sem precedentes, por seu aspecto avassalador.” É uma crise vital, pois pela primeira vez, na história da humanidade corremos o risco iminente de autodestruição total. Indubitavelmente a vida está ameaçada no nosso planeta, mas de acordo com a filosofia oriental toda crise possui em si a oportunidade de transformação. Não é por acaso que encontramos hoje as questões ambientais na pauta de todos os discursos e, por conseguinte em muitas campanhas de organizações religiosas. Marina Silva, por exemplo, ex-Ministra do Meio Ambiente do governo Lula é evangélica e é um exemplo do compromisso de diversas igrejas em incorporar as questões ambientais na reflexão da atuação dos cristãos. A igreja católica, por sua vez, no dia 13 de Março lançou a Campanha da Fraternidade de 2011 cujo tema, Fraternidade e a Vida no Planeta e o Lema "A Criação geme em dores de parto", insere a problemática ambiental nas reflexões das comunidades de todo país. Nesta vertente busca abordar as pesquisas das causas, conseqüências e gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas para a sobrevivência da vida no planeta.

        No lançamento oficial da campanha fraternidade ao conclamar cada cristão a mudar suas atitudes citou-se Madre Tereza de Calcutá ao afirmar que, “cada ação será uma gota de água dentro de um oceano, que o tornará diferente.” Ressaltou-se a necessidade urgente de mudança de mentalidade com a convicção de que apenas as atitudes de cada pessoa pautada na cultura de conscientização ambiental poderão reverter às conseqüências de uma sociedade pautada no consumismo capitalista selvagem.
        Vivemos um momento dramático em que a realidade reforça a necessidade premente de mobilização e organização consciente da sociedade civil, pois ninguém comete erro maior do que nada fazer. Cada um de nós deve assumir o compromisso de mudança de atitude em favor da preservação do planeta. É urgente a adoção de medidas rápidas com caráter emergencial e profunda eficiência para que os padrões culturais se alterem e as políticas públicas tenham a necessária eficácia na reversão do atual quadro ambiental. Apenas assim poderemos transformar os gemidos de dor em gemido de amor e de esperança.
Regina de Faria Brito


Regina de Faria Brito
Presidente SINDIANÁPOLIS